Pelo Roxo que Brilha
A plateia enxerga de longe, por cima de alguns ombros, com o olhar vidrado na fantasia que se apresenta. Alguns por perto, encolhidos por conta do palco que se transforma a cada cena. Em bancos estofados, ou de madeira. Sob uma lona. Em frente à televisão acostumada na sala... Os artistas ganham vida. Com imposição, furtam espaços para suas encenações. E sem pedir licença, nos esbarramos. Mas as luzes se apagam e, guiados pelos aplausos, eles voltam à realidade conosco. Andam pelas faixas das ruas com a mesma delicadeza dos nossos passos, cercados por um mundo estranho, recheado por suas fantasias. Pela dela.
Em meio ao muito do todos, há sempre o destaque de cada um. Uma mulher com jeito de menina, de nome Karina, com seu grande guarda-chuva colorido, e o céu nublado. Os óculos trocados pelas lentes. As mãos finas que prenderam o cabelo preto, sem gostar de pentes, mas endireitados. A ideia de viver pela arte de encenar. Sempre uma regata justa, combinada com um riso simpático e um jeans casual. Que se define como magrela e cara de louca. Uma mochila cheia, um bilhete único gasto e um all star de lantejoulas roxas muito brilhantes.
No pulso, um relógio vermelho e amarelo com bichinhos digitais que andam. E às vezes até correm com ela pelo seu lugar mais adorado em São Paulo, a estridente famosa Avenida Paulista. O contar dos minutos que a faz pontual mesmo na pressa de sua cidade asfaltada. No rabiscar do significado de arte para si mesma: a alegria.
.o início por tráS
Uma faculdade de hotelaria solta por aqui, um técnico em design de interiores por ali. No caminho, um curso de dublagem passando atrevido. Agarrado por ela. E a enganação do organizador do curso, que tapeou os alunos e fugiu montado em sua sela com o dinheiro. Mas uma descoberta: para se fazer um curso de dublagem, ela deveria ter primeiramente formação de atriz.
Karina Scott... No curso de teatro houve a descoberta, o sentido. Uma companhia chamada Arte Gullik, e o registro profissional após dois anos e meio. Cada aula com quatro horas de exercícios corporais e vocais até improvisação. Com ensaios. E a certeza de que no teatro ela se encontrara. Mesmo cantando que a profissão não dá dinheiro, o teatro é seu tudo. Não é famosa, mas tem olhos que brilham quando fala sobre sua arte, do que gosta, de seu sonho.
E agora sim, mais um curso de dublagem. Na Dubrasil ela encara a técnica de ouvir, ler, olhar e falar. Para ser ouvida, e não vista, desta vez, como aprendendo a dublar com a babá do pequeno Incrível. Karina também faz aulas de circo e executa acrobacias de solo, apesar de ser atrapalhada e tropicar normalmente em chãos lisos... Sob a lona e em frente à televisão.
Trabalha atualmente com figuração em comerciais, e conta, feliz, sobre seus horários não fixos, e até da possibilidade de poder dormir um pouco mais. De manhã, quando seus pais já deixaram a casa, gosta de acordar e manter-se em silêncio antes do amanhecer para si. Excluindo o fato de que a insônia, em algumas noites, a retém de olhos bem abertos, revirada.
.teatro vivO
Irmã Margarete caiu de cabeça e ficou retardada. Não tinha vocação nenhuma para ser freira, mas, como foi criada dentro de um convento, sua vida voltou-se para as rotinas católicas. Com o convento devendo aluguel, as freiras organizam uma cantoria para arrecadar verbas. Irmã Margarete usava óculos fundo de garrafa. E como cantavam mal.
Bianca era uma ratinha detetive. Gostava de Bernardo e era perseguida pela Maléfica. Era delicada. Um dia, após ficar presa agachada nas garras da Maléfica, ela ouviu: “Abre as pernas, ratinha gostosa”. De fato, o grito não viera de Bernardo.
Julie era louca. Tinha um marido assassino, lunático. Era maluca e não sabia que era, e só descobrira depois de algum tempo, ao conversar com outra louca. E que bela imitação de loucura.
Sra. Smith tinha um casamento de fachada. Não deixava transparecer nada que não a tornasse fina. Seu marido era desligado, e ela vivia só de sua imagem.
Tudo em um palco.
.pedaços delA
Karina, em sua fantasia misturada na realidade, é Mele-Ka. Uma palhaça arteira, de sorriso brincalhão, toda colorida. Uma palhaça na vida, nas ruas, ou no profissionalismo, como no clipe o Camarada D’água, do Teatro Mágico. Sua própria expressão.
Mora com seus pais e coloca sua família em um alto escalão das coisas importantes da vida, no topo, pouco acima de seus amigos. Lembrasse com carinho dos dias divertidos com seu irmão mais velho - hoje casado – ao assistir ao seriado Chaves. E dá gargalhada ao contar que, em viagem de formatura do colegial, a rótula de seu joelho saiu do lugar, mas voltou sozinha durante o longo percurso na estrada de terra. Mesmo recordando a dor.
É tímida e extrovertida, tudo junto. Faz piada de tudo, e observa. Mostra-se séria quando precisa. Tem cara de nerd quando usa óculos. Nunca saiu no tapa com uma colega, nem deu unhadas. Ama Jack Nicholson e suas sobrancelhas. Usa meias coloridas, 3/4.
Não tem religião. Quer ser cremada, mas nada de enterros nem de potes pesados, as cinzas devem ser jogadas ao léu. Não costuma levar o namoro como prioridade. Rock antigo e MPB. Colocaria lentes coloridas só se fossem vermelhas. Não tem problemas com palavrões. Nada de sol e feijão. Adora fotos de pés, talvez por serem os guias do percurso. Como diz, é uma eterna criança, quase enfeitiçada pelo Peter Pan.
Tem uma tatuagem no pé esquerdo que indica: Liberdade, Igualdade, Fraternidade e Felicidade. Os três primeiros lembram o grande marco da Revolução Francesa e sua história, além de sua viagem para Paris, com as estátuas peladas. Já a Felicidade está lá porque é carregada com ela por todo o lugar.
O Deus que habita em mim saúda o Deus que habita em você. A saudação namastê, escrita em hindi, está gravada em seu pulso direito. Livres, cada um com seu próprio Deus. Livres.
E o Ka da Mele vem de Karina...
.o vão livrE
Karina, com seus vinte e seis anos, tem uma ótima autoestima. Mas leva um lema consigo: ninguém vive apenas de elogios. Porque elogio, por mais valoroso que seja, não paga conta. Quer a parte dela em dinheiro, isso sim.
E quando toda a conversa já havia terminado, e o vão livre do MASP já tinha alguns visitantes distraídos, ela retirou pequenos papéis verdes púrpuras e fez um Tsuru, um pássaro da sorte japonês, e entregou a mim. Ele até batia asas, e o vão livre combinava. Pela alma leve e sonhadora dela.

