domingo, 25 de outubro de 2009

Pelo Roxo que Brilha

A plateia enxerga de longe, por cima de alguns ombros, com o olhar vidrado na fantasia que se apresenta. Alguns por perto, encolhidos por conta do palco que se transforma a cada cena. Em bancos estofados, ou de madeira. Sob uma lona. Em frente à televisão acostumada na sala... Os artistas ganham vida. Com imposição, furtam espaços para suas encenações. E sem pedir licença, nos esbarramos. Mas as luzes se apagam e, guiados pelos aplausos, eles voltam à realidade conosco. Andam pelas faixas das ruas com a mesma delicadeza dos nossos passos, cercados por um mundo estranho, recheado por suas fantasias. Pela dela.

Em meio ao muito do todos, há sempre o destaque de cada um. Uma mulher com jeito de menina, de nome Karina, com seu grande guarda-chuva colorido, e o céu nublado. Os óculos trocados pelas lentes. As mãos finas que prenderam o cabelo preto, sem gostar de pentes, mas endireitados. A ideia de viver pela arte de encenar. Sempre uma regata justa, combinada com um riso simpático e um jeans casual. Que se define como magrela e cara de louca. Uma mochila cheia, um bilhete único gasto e um all star de lantejoulas roxas muito brilhantes.

No pulso, um relógio vermelho e amarelo com bichinhos digitais que andam. E às vezes até correm com ela pelo seu lugar mais adorado em São Paulo, a estridente famosa Avenida Paulista. O contar dos minutos que a faz pontual mesmo na pressa de sua cidade asfaltada. No rabiscar do significado de arte para si mesma: a alegria.


.o início por tráS

Uma faculdade de hotelaria solta por aqui, um técnico em design de interiores por ali. No caminho, um curso de dublagem passando atrevido. Agarrado por ela. E a enganação do organizador do curso, que tapeou os alunos e fugiu montado em sua sela com o dinheiro. Mas uma descoberta: para se fazer um curso de dublagem, ela deveria ter primeiramente formação de atriz.

Karina Scott... No curso de teatro houve a descoberta, o sentido. Uma companhia chamada Arte Gullik, e o registro profissional após dois anos e meio. Cada aula com quatro horas de exercícios corporais e vocais até improvisação. Com ensaios. E a certeza de que no teatro ela se encontrara. Mesmo cantando que a profissão não dá dinheiro, o teatro é seu tudo. Não é famosa, mas tem olhos que brilham quando fala sobre sua arte, do que gosta, de seu sonho.

E agora sim, mais um curso de dublagem. Na Dubrasil ela encara a técnica de ouvir, ler, olhar e falar. Para ser ouvida, e não vista, desta vez, como aprendendo a dublar com a babá do pequeno Incrível. Karina também faz aulas de circo e executa acrobacias de solo, apesar de ser atrapalhada e tropicar normalmente em chãos lisos... Sob a lona e em frente à televisão.

Trabalha atualmente com figuração em comerciais, e conta, feliz, sobre seus horários não fixos, e até da possibilidade de poder dormir um pouco mais. De manhã, quando seus pais já deixaram a casa, gosta de acordar e manter-se em silêncio antes do amanhecer para si. Excluindo o fato de que a insônia, em algumas noites, a retém de olhos bem abertos, revirada.


.teatro vivO

Irmã Margarete caiu de cabeça e ficou retardada. Não tinha vocação nenhuma para ser freira, mas, como foi criada dentro de um convento, sua vida voltou-se para as rotinas católicas. Com o convento devendo aluguel, as freiras organizam uma cantoria para arrecadar verbas. Irmã Margarete usava óculos fundo de garrafa. E como cantavam mal.

Bianca era uma ratinha detetive. Gostava de Bernardo e era perseguida pela Maléfica. Era delicada. Um dia, após ficar presa agachada nas garras da Maléfica, ela ouviu: “Abre as pernas, ratinha gostosa”. De fato, o grito não viera de Bernardo.

Julie era louca. Tinha um marido assassino, lunático. Era maluca e não sabia que era, e só descobrira depois de algum tempo, ao conversar com outra louca. E que bela imitação de loucura.

Sra. Smith tinha um casamento de fachada. Não deixava transparecer nada que não a tornasse fina. Seu marido era desligado, e ela vivia só de sua imagem.

Tudo em um palco.


.pedaços delA

Karina, em sua fantasia misturada na realidade, é Mele-Ka. Uma palhaça arteira, de sorriso brincalhão, toda colorida. Uma palhaça na vida, nas ruas, ou no profissionalismo, como no clipe o Camarada D’água, do Teatro Mágico. Sua própria expressão.

Mora com seus pais e coloca sua família em um alto escalão das coisas importantes da vida, no topo, pouco acima de seus amigos. Lembrasse com carinho dos dias divertidos com seu irmão mais velho - hoje casado – ao assistir ao seriado Chaves. E dá gargalhada ao contar que, em viagem de formatura do colegial, a rótula de seu joelho saiu do lugar, mas voltou sozinha durante o longo percurso na estrada de terra. Mesmo recordando a dor.

É tímida e extrovertida, tudo junto. Faz piada de tudo, e observa. Mostra-se séria quando precisa. Tem cara de nerd quando usa óculos. Nunca saiu no tapa com uma colega, nem deu unhadas. Ama Jack Nicholson e suas sobrancelhas. Usa meias coloridas, 3/4.

Não tem religião. Quer ser cremada, mas nada de enterros nem de potes pesados, as cinzas devem ser jogadas ao léu. Não costuma levar o namoro como prioridade. Rock antigo e MPB. Colocaria lentes coloridas só se fossem vermelhas. Não tem problemas com palavrões. Nada de sol e feijão. Adora fotos de pés, talvez por serem os guias do percurso. Como diz, é uma eterna criança, quase enfeitiçada pelo Peter Pan.

Tem uma tatuagem no pé esquerdo que indica: Liberdade, Igualdade, Fraternidade e Felicidade. Os três primeiros lembram o grande marco da Revolução Francesa e sua história, além de sua viagem para Paris, com as estátuas peladas. Já a Felicidade está lá porque é carregada com ela por todo o lugar.

O Deus que habita em mim saúda o Deus que habita em você. A saudação namastê, escrita em hindi, está gravada em seu pulso direito. Livres, cada um com seu próprio Deus. Livres.

E o Ka da Mele vem de Karina...


.o vão livrE

Karina, com seus vinte e seis anos, tem uma ótima autoestima. Mas leva um lema consigo: ninguém vive apenas de elogios. Porque elogio, por mais valoroso que seja, não paga conta. Quer a parte dela em dinheiro, isso sim.

E quando toda a conversa já havia terminado, e o vão livre do MASP já tinha alguns visitantes distraídos, ela retirou pequenos papéis verdes púrpuras e fez um Tsuru, um pássaro da sorte japonês, e entregou a mim. Ele até batia asas, e o vão livre combinava. Pela alma leve e sonhadora dela.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

No dia 01/08 será lançado o livro "Dias Contados - Contos Sobre o Fim do Mundo."


E o Mundo continua Imundo depois que não é mais Mundo?


Participo do livro com o conto "No Escuro do Fundo Borrado", e te convido - com quem quiser levar - para conhecer o Fim no coquetel de lançamento.


E o Mundo tem Fim pelo próprio Imundo?


O lançamento ocorrerá na Biblioteca Viriato Corrêa de Literatura Fantástica, na Rua Sena Madureira, 298, das 15 às 19 horas.


E o Imundo não será mais o mesmo sem o Mundo?


Vejo você por lá, eis o convite oficial em meu orkut, com toda a programação, e tudo mais...


E, Imundos, como será o Fim do Mundo?

sábado, 6 de junho de 2009

Contos de uma noite.. em reticências!

Com a calça caída e o olho traçado, além da bolsa vermelha, carregava um apetite sexual. Quem disse que toda despedida é triste? Aqueles olhos delatavam o juízo final. Se é que podemos colocar juízo nisso tudo.

Era o homem careca de dentes trincados, que, com o copo carregado, a puxou. Bukowski? Xico Sá? Um cronista diário? Impossível saber. Afinal de contas, alguém sabe a origem de si próprio?

Era um cego safado. De origem chucra, na certa nascera nas bandas de Caicó. Não era Bukowski, era o Ó do borogodÓ.

Mas, arretado que era, agarrou a danada, com os bolsos sem dinheiro, e a cabeça pensante latejando. O gozo. A satisfação. A incerteza de estar desacompanhado.

por Denver Pelluchi, Diego Costa e Renato Zapata, em um dos bares da vida, com loiras geladas por perto, espumando!

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Um pintor do cotidiano


Se Tim Burton, cineasta americano, ilustrasse o dia de nascimento de Xico Sá, Santana do Cariri, no Ceará, teria um céu nebuloso. Trovões. Relâmpagos. Chuva ácida corroendo as inúmeras casas de taipa. Um dilúvio. Sem mais delongas, seria o espetáculo obscuro da natureza. Impossível. Em 6 de outubro de 1963, Burton era apenas um menino com cinco anos de idade. Ainda bem que no Cariri o sol é quente, perene...

Xico Sá é filósofo. Não por formação, mas, sim, por fotografar o cotidiano. A morte, a vida, o ódio, o amor, a paz, ou a guerra são temas fáceis para ele. Difícil mesmo é classificar a ordem entre jornalista, escritor e boêmio. Simplista, com pensamentos tão velozes que deixariam Michael Schumacher desconcertado, Xico é dono de uma língua praticamente cáustica, capaz de causar mal-estar em uns, e despertar paixão em muitos de seus leitores. Frequentador assíduo de bairros célebres pela noitada, como Vila Madalena e Rua Augusta, ele revive, nos bares, uma época primordial, a qual os profissionais da informação discutiam pautas no calor e barulho dos botecos.
- A minha fama de boemia está diretamente ligada às redações. Quando eu comecei na profissão, no final dos anos 80, início de 90, nem se discutia quem era boêmio ou não. Quem sofria preconceito era quem não era, tinha alguns casos que o cara era obrigado a beber, senão era chamado de ingênuo. Mas acontecia de o fulano não tomar nada aí ninguém forçava. “Noossa!” - Xico exclamou enquanto uma bela morena passava pela calçada de um bar na Augusta.

A hora sagrada
O primeiro encontro, de três saídas, foi justamente em um bar, chamado Mercearia São Pedro, na Vila Madalena, em uma quinta-feira, 5 de março, após o Programa Cartão Verde – da TV Cultura. Considerado um reduto de comunicadores, Xico, o time de debate esportivo da Fundação Padre Anchieta e outros amigos fizeram o happy hour por lá, que foi regado à cerveja.
- Camisa do Lampião. Grande homem. Manifestou-se o jornalista ao ver a estampa de minha camiseta. O cumprimento, seguido de um aperto de mão e um meio abraço, revela o quão carismático ele é.

A roda de amigos é grande. Cerca de 16 pessoas presentes no recinto e Xico parecia ser onipresente, atencioso com todos. Ali, a maioria se reúne para relaxar, ouvir histórias e divagações em meio à madrugada. Entre eles, um vendedor de discos de vinil.
- Xico Sá? As pessoas sabem quem é ele. Conhecem por natureza, como o sol, diz Alagoas. O vendedor conheceu o jornalista há cerca de cinco anos em um bar na famosa vila e, desde então, tornaram-se amigos. Em poucos minutos o nordestino revelou a preferência musical de Xico.
- Foi espontâneo. Nos conhecemos de maneira simples. Ele comprou discos de gênero nordestino: Luís Vieira e Jackson do Pandeiro. Sempre que Xico Sá me encontra, ele canta “Guadalajara, Guadalajara, Guadalajara”.Uma música do Rei do Rock, Elvis Presley, do álbum Seresteiro de Acapulco.

Xico não é nenhum galã, mas é um sedutor. Em meio aos abraços amigáveis, trejeitos e brindes, ele constrói as próprias citações: “Vamos viver, o resto que se foda...” – gargalha o escritor ao tilintar dos copos.

Em um desses brindes, a amiga e fotógrafa, Verônica Campos, que o conhece há mais de dez anos, revela uma peripécia de Xico.
- Ele [Xico Sá] tem uma característica muito específica quando bebe demais. Ele gosta de beijar os pés das mulheres. Ele adora pé de mulher de fora, de sandália. Ele já beijou os meus.

O que não é encontrado no GOOGLE
Ele não tem filhos, mas tem vontade de ser pai. A namorada é jornalista e 20 anos mais nova. Xico Sá saiu cedo de casa, tornou-se universitário aos 18 anos e foi estudar na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Na época, o estudante foi bancado pelo governo federal. Ficou “estatizado”, termo que ele mesmo adotou. Deixar o lar foi necessário para correr atrás do universo literário. A família é de origem simples, sertaneja, ao todo são seis irmãos, e Xico é o mais velho.
- Eu respeito muito a minha família, acho tão sagrado. Sou muito apegado aos meus pais. Desde o meu primeiro emprego eu os ajudo. Depois que saí de lá [casa], eu tinha uma preocupação em melhorar a vida deles e, por isso, sempre mandei uma grana para casa. Vou todo ano para lá, ainda mais agora que eles estão mais velhinhos.

Ele conta que na sua casa, no sertão de Santana do Cariri, não havia livros, pois a família não tinha o hábito de ler. O aprendizado era de maneira empírica, outro tipo de sabedoria.
- Eles são sábios por outras razões, pelo repertório da vida. Ambos não terminaram nem o primário. Em minhas crônicas, eu acabo citando frases da minha mãe e do meu pai. Mas nada mais aprofundado.

O perfil da família não contradiz as histórias já conhecidas do nordeste. Os irmãos começaram a trabalhar desde cedo e não tinham vocação para estudar.
- Eles [a família] têm admiração [por mim]. Mas também foram muito práticos, trabalhavam com meu pai e se espelharam nele. Até eu ajudava na mercearia.

Hoje, o trabalho de Xico Sá é mais reconhecido no ambiente familiar. Os primos e sobrinhos, que admiram o tio, imprimem e leem textos produzidos pelo jornalista para os mais velhos.
- Agora, a gurizada, sobrinhos, primos, com o acesso a internet veem alguns de meus trabalhos. Mas antes disso, os mais velhos não entendiam o que eu fazia em São Paulo. Eu não aparecia na televisão, então, não era jornalista – finalizou com um sorriso, humilde.

A base das crônicas
Xico Sá já foi casado três vezes, mas nada de altar e festas tradicionais de origem burguesa. Foi o tal de “se juntar”. Experiente, é no blog “O Carapuceiro” que o cronista desenha o cotidiano com um olhar impiedoso. Sociedade, convivência entre homem e mulher e outros temas. Seja uma escrita regional, um “portunhol”, ou o português claro, a mensagem é transmitida. Os textos são praticamente eloquentes. Segundo ele, a inspiração em explorar relacionamentos conjugais vem de Nelson Rodrigues.
- É quase um plágio. É muito parecido com o universo que ele abordava.
Se os textos são sobre casais, as nuances do relacionamento vêm à tona: paixão, sexo, traição, o término. O escritor considera fundamental para a vida estar com alguém, no entanto, ele não acredita na eternidade dos relacionamentos.
- Não podemos nos torturar, como nossos avós fizeram. Claro, todo final é doloroso, mas é impossível prorrogar se não há mais amor.

Dentro do carro de cor prata
O programa Cartão Verde é apresentado por Vladir Lemos. Integram a mesa, Vitor Birner, Sócrates e Xico Sá. O debate é sobre futebol. O tempero fica por conta de alguns palavrões e o bom humor, mesclados ao jornalismo moderno. Xico, por causa de um atraso, só entrou no segundo bloco do programa. “Problemas com o táxi” foi a justificativa. Depois do expediente, o destino foi o boteco. Ao adentrarmos no carro, a linguagem jornalística deu lugar aos bastidores. Vladir disparou. - Achei o atleta do palmeiras meio estrela, Xicão.
- Pois é, ele ficou meio puto por não ter sido convocado. Não escondeu a frustração, não...

O ex-jogador Sócrates, apelidado de Magrão, acompanha há anos o trabalho do jornalista Xico Sá. – O Conheci (pessoalmente) há cerca de dez meses. Apesar de estilos diferentes, um agrega valor ao outro.

Do underground ao furo
Em 1993, Xico Sá obteve destaque entre os jornalistas por revelar ao país o paradeiro de PC Farias, pela Folha de S. Paulo. Com métodos diferentes dos demais repórteres, que optaram pela procura convencional, Xico apostou em frequentar o submundo, considerado sujo, do político.
- Eu só dei o furo porque que acreditei naquele mundo dele, puteiros etc. Tava todo mundo indo pelo lado limpinho da vida.
- O que mais valeu a pena na matéria do PC. O furo, ou os prostíbulos?
- Ambas as coisas foram prazerosas. – retrucou com um sorriso, coçando a barba. - Eu só revelei o destino dele porque eu estava buscando, eu fui ao “inferno” com ele. Não teve nada de um grande repórter, eu apenas me aproximei dos assessores dele que freqüentavam os puteiros. E acabou dando certo, me envolvi com o lado “b” de PC. Xico São contou que a Folha mandou inúmeros jornalistas a Londres, mas ninguém conseguiu descobrir o paradeiro do político.

Divagações
Imagine uma mesa de redação com Carlinhos Oliveira, Tarso de Castro...E Xico Sá. No quesito trabalho, Xico admite, com humildade, que precisar fazer mais. - Eu evitaria o meu nome – disse sorrindo. Esses caras fizeram demais. Na nossa segunda conversa, o jornalista revelou a vontade de ser professor universitário e passar o conhecimento de redação aos alunos. Comparado aos anos mágicos em que ele era universitário, hoje, ele lê menos, no entanto, trabalha mais. Embora a ausência de romance nas redações seja nítida e atingiu, inclusive, os jornalistas mais velhos, Xico Sá aconselha aos estagiários.
- É uma época de romantismo zero. O cara hoje se fode mesmo, o seu chefe não quer saber do romance. A Internet é uma sorte nossa, já que você pode abrir seu diário, seu blog e contar uma história do jeito que você quer.
O jornalista não teme o desconhecido. E, se fosse retratado por Burton, seria alguma espécie de bruxo velho com a cartola do saber.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Duzentos pijamas e uma vasectomia

O Condomínio Edifício Aliança, acinzentado e rústico, compõe, junto de construções antigas e arranha-céus, um mosaico tipicamente urbano. Situado em uma das veias que corta a avenida Paulista, o prédio faz parte da rua Frei Caneca, em São Paulo, um dos redutos ditos modernos da cidade. Por aqui, transitam prostitutas, rapazes em carros de luxo e bêbados arruinados. Em meio a esse antro de contrariedades e estranhezas reside o não menos curioso senhor conhecido como Tio do Pijama.

O tal edifício onde mora é simples e recepcionado por um bigodudo que me responde com um “ele é uma figura” quando digo que vou passar algumas horas no apartamento de Jáder Guadalupe D’Ávila. Talvez ele seja o único a conhecer Jáder pelo nome que consta no RG. Nas ruas, só o conhece quem diz “Tio do Pijama”. “É fácil me reconhecer pelas redondezas porque não tem outro que ande por aí desse jeito”, ele me diria mais tarde.

Entro no elevador e aperto o botão nove. Toco a campainha do número 93 e noto, no chão, que um piso em xadrez, preto e branco, rompe os limites entre o apartamento e o corredor do andar de Jáder. E me surpreendo quando ele me abre a porta vestindo pijamas que formam um conjunto quase bizarro com o piso da sala e a toalha de mesa – outros objetos de mesmas cores davam conta de compor uma ilusão de ótica capaz de derrubar qualquer encachaçado do centro da cidade.

“Você não tem câmera?”, sonda, decepcionado ao ver que disponho apenas de gravador, canetas e um bloco de folhas em branco. “Não”, respondo, sem graça.

Jáder D’Ávila tem 55 anos e vive sozinho em seu apartamento. Trabalha como carteiro interno de um órgão de justiça durante o dia e passa noites da semana assistindo filmes “comprados no camelô”. Às sextas-feiras, freqüenta os botequins da rua Augusta e, aos sábados, recebe a única filha, Gabriela D’Ávila, para almoçar. Divorciado há onze anos, é só para a ex-mulher que ele veste roupas “molambentas” – modo como trata vestes comuns como calça jeans e camiseta – porque senão não tem papo. Formado em Direito, Administração e Economia, Jáder encontra, até hoje, amigos antigos de faculdade para noites regadas a vinho.

Não se passam dez minutos de conversa na saleta preta e branca e Jáder me convida para bater um papo no quarto – proposta que eu talvez recusasse em outra ocasião que não envolvesse um guarda-roupa recheado de irreverência.

Ele sai à frente, rápido e todo afetado, combinando perfeitamente com um quadro surreal pendurado na parede da sala. Tudo o que o Tio do Pijama diz carrega consigo efeitos especiais, adjetivos como “fantástico”, “lindo” e “engraçado” e, por causa deles, tudo o que sai de sua boca realmente parece fantástico, lindo e engraçado. De alguma forma, ele faz a gente se sentir culpado por ser comum e, às vezes, mal-humorado.

Duas portas se abrem e um turbilhão de cores, tecidos e estampas quase fazem doer meus olhos – diferente dos dele, maravilhados e brilhantes por trás dos óculos. Onças, zebras, tigres, flores, listras: a variedade dos exatos 200 modelos de pijama impressiona pelo exagero. E, para cada um, existe calçado de mesma cor ou estampa da roupa. Até a pulseira do relógio sofre modificações para combinar com o visual. “Tudo isso é feito com retalhos de tecido que compro no Brás por dez reais o quilo. Daí eu consigo fazer o pijama e ainda sobra pano pra dar um trato no calçado e no relógio”, conta, orgulhoso. Com alguma sorte, algum dos 24 guarda-chuvas entra na brincadeira e forma aquilo que nem Coco Chanel pode ter imaginado: um conjunto de pijama, calçado, relógio e guarda-chuva, tudo igual. “Chique, né?”, indaga. “A mulherada adora”.

Vasectomia

Dez anos depois que Gabriela D’Ávila chegou ao mundo, sem pijamas, Jáder se rendeu ao que ele julga o maior feito da medicina: a vasectomia. “Quando as mulheres souberam que desse mato não sai mais coelho, a coisa começou a andar”, dispara, batendo os dedos de uma das mãos na palma da outra.

Frenético, o Tio do Pijama, ainda em xadrez, num salto, levanta da mesa sem avisar ou dizer nada. Ele comanda o show, liga a luz do quarto, revira uma cômoda já bagunçada e retira de uma das gavetas uma corrente brilhante. Entrega-me o objeto como se me desse um troféu. “Pra você ter uma noção, eu ando com isso, pelo menos, umas três vezes por semana”, explica e, logo em seguida, silencia.

Um pingente, preso à corrente, traz o dizer “vasectomia” em prata. “Mas também tenho em cor latão, porque daí eu posso usar combinando com os pijamas”. As paredes quase somem e a ilusão de ótica em preto e branco se faz inerte em minha mente. Espantado, gargalho enquanto o tio mais bizarro que qualquer sobrinho poderia ter se orgulha de minha reação. “O doutor que inventou isso merece toda a admiração do mundo”, e sorri.

Drogas e rockn’ roll

Uma sexta-feira relativamente fria, com os termômetros da avenida Paulista na marca dos 18º, é palco de um Tio do Pijama em dia de rockstar. “No horário”, abre a porta com o mesmo traje do encontro anterior. “Um amigo meu chega já, vamos abrir um vinho”.

A cozinha se divide em uma parte destinada a mesa e cadeiras, e outra com varais tomados por pijamas próximos a uma vidraça. Na geladeira, cinco fileiras de adesivos 3X4 preenchem o vazio branco do eletrodoméstico. Frank Sinatra, torre Eiffel, Elvis Presley, Marilyn Monroe e a banda Kiss se misturam a dezenas de referências culturais.

O Côthes Du Rhône é aberto quando o amigo José Luiz Moreira chega, chamando o Tio do Pijama de “Jóinha”. Taças recebem vinho tinto até a metade, um brinde é feito e dois baseados são acesos. “Isso aqui é que nem relógio, vai ter que rodar a mesa”. Agradeço com um sorriso amarelado e, “obrigado”, acendo um Marlboro para acompanhar a empreitada.

Em cerca de uma hora, em meio a um aroma potente de maconha, os dois amigos e eu conversamos sobre vinhos, futebol, viagens e histórias antigas. “No fim da faculdade, fizemos uma festa do Jáder no Mackenzie e apareceu todo mundo vestido com uma cor só de roupa”, relembra Moreira, nostálgico.

Os olhos dos dois estão tomados por um emaranhado de finas linhas vermelhas, como se algo tivesse trincado um vidro frágil cheio de sangue. Ao fim dos baseados, eles utilizam curtos canudos azuis para aproveitar a maconha até que ela acabe. “Coisa lindja”, diz Jáder, entre risadas abafadas, enquanto pita pela última vez.

Mais lento, Moreira boceja enquanto o Tio do Pijama nos filma e pede para que acenemos para a câmera do celular. Termino com uma taça de vinho e ouço Jáder sugerir: “Tô numa fome do caramba, vamos comer uma pizza?”

Showman

Entram em meu carro e atravessamos a avenida Paulista até a alameda Itu. Do estacionamento até a rua Haddock Lobo, o Tio do Pijama nos abandona e segue dez metros adiante, anda só e é apontado por quem passa por ele. “Não é aquele que apareceu no Fantástico?”, ouço um segurança de bar cochichar a outro.

A Pizzaria Marguerita está abarrotada de gente e, não surpreendentemente, é visível a atenção que chama o Tio do Pijama. A começar pelo traje, é verdade. Mas Jáder é especialista e comanda o próprio show à sua maneira. “Eu gosto disso, sabia?”, me conta, feliz.

O espetáculo que o Tio do Pijama sustenta envolve conversas com quem quer que seja – desconhecidos pais de família ou mesmo o dono da pizzaria –, a qualquer hora. Ao mesmo tempo em que vive só, não é difícil encontrá-lo em mesas de bar da rua Augusta, por exemplo. “Ele senta pra trocar idéia com quem chamar e o pessoal tem um carinho bacana pelo Jóinha”, derrete-se Moreira.

O curioso é a maneira como o Tio do Pijama se destaca. Enquanto a maior parte da sociedade busca conseguir bons empregos, subir na vida e constituir família para se mostrar um cidadão que mereça créditos e comentários atenciosos de terceiros, Jáder se mete em pijamas – um tipo para cada estação – e aposta em um modelo assustadoramente mais audacioso.

Pizza de três queijos, chopes, refrigerantes, mais conversas e mais acenos. Ao fim da noite, mesmo no carro, depois de se despedir de um dos melhores amigos, Jáder D’Ávila não perde o entusiasmo. São histórias sobre pijamas, sobre shows de rock e sobre os shows dele mesmo.

Antes de me deixar só, já em frente ao Condomínio Edifício Aliança, comento que procurei o nome do cirurgião divino que fez a primeira vasectomia: “É Dr. Li Shunqiang”. Ele ri e comenta que talvez seja o próximo pingente a andar pendurado no pescoço. Ao atravessar a rua Frei Caneca em direção ao prédio em que mora, Jáder ainda pára, acena para dois rapazes, e some do portão para a recepção...

quarta-feira, 15 de abril de 2009

A filosofia de um coveiro

O encontro tinha que ser em seu ambiente de trabalho, por isso lá estava eu, entrando no maior cemitério da América Latina, em São Paulo, no bairro da Vila Formosa, perplexa com a imensidão de árvores que se estendiam até o horizonte. E eu entendi porque o lugar ocupa a quarta maior área verde municipal, perdendo apenas para os parques Anhanguera, Ibirapuera e do Carmo.

A mim cabia procurar a parte dos velórios. Era uma casa modesta e antiga com dezoito salas. Todas ocupadas. E eu, curiosamente, fiquei surpreendida, já que se tratava de um sábado por volta do meio dia, esquecendo que não existe hora determinada para a morte.

Logo ali, do lado da casinha, estavam os coveiros, vestidos com seus macacões azuis, enquanto conversavam animadamente. Quando minha presença foi notada, um deles se levantou. Era João Pedro Borges que caminhava em minha direção com um sorriso largo e amistoso. “Vamos?”, ele me perguntou.

E nós dois seguimos adentrando o portão de ferro verde, e a passarela de terra. À primeira vista, o cemitério da Vila Formosa parecia um grande jardim. “É grande, não é?”, disse João, que na certa reparava a minha reação.

“Aqui tem 33 alqueires de terra, muitos bem ocupados”, e soltou uma risada gostosa me passando a impressão de ser uma pessoa muito boa. E de fato, como descobri depois, ele era.

João Pedro Borges tem 63 anos, e trabalha no cemitério da Vila Formosa há 40. Não se arrepende de não ter tido filhos.

- Não deixei a nenhuma criatura o legado da nossa miséria – quem escreveu isso?- peguntou-me.
- Machado de Assis, eu respondi.
- Não, foi alguma coisa Cubas. Isso, Brás Cubas.

E eu fiquei surpreendida que alguns ecos de Machado de Assis, mesmo que confusos, haviam chegado até ele.

Viver de morte

João Pedro Borges é chamado pelos companheiros de trabalho de “Pedro Bó”.
-Parte por causa do sobrenome, parte por causa daquele personagem que é meio burrinho, sabe? Aquele do Chico Anysio – ele explicou.

Mas João não é burro. Estudou até a quinta série, porque seu pai achava que saber contar, ler e escrever já era o suficiente pra ter uma vida digna de trabalhador. “Ele era sapateiro, e aos 11 anos eu já ajudava a montar sapatos. Eu adorava o cheiro da cola de sapateiro e, por isso, sempre sobrava para mim colar as palmilhas no suporte de madeira”.

-E como se tornou um coveiro? – indaguei.
-Por incrível que pareça, eu decidi viver de morte. Sempre me interessei por estes assuntos, e adorava as histórias macabras de terror. Fora a curiosidade pelo corpo humano em si. Condições para me tornar doutor eu não tinha. O jeito foi escolher algo que chegasse mais perto, dentro dos meus limites – narrou João, que voltava a sorrir.
-Mas você não tem muito contato com o corpo, não é?
-Com o corpo fresco é raro. Geralmente quando chega algum indigente, que vem direto do necrotério, sem roupa e nem nada. Mas eu tenho, no geral, bastante contato com ossada. Eu faço cerca de dez exumações por dia. É muito interessante como a gente vai aprendendo sozinho com os ossos. Por exemplo, alguém que morreu de câncer, ou qualquer doença em que teve que tomar muito remédio, os ossos ficam amarelos. Outra coisa são aqueles que têm ostio...oste.
-Osteoporose?
-Isso, osteoporose. O osso fica granulado, como se fosse esfarelar se a gente apertar muito.

João foi me levando para uma fileira de muro, cheio de espaços, como se fosse uma vitrine. Alguns tinham fotos, em outros apenas algum mimo religioso, uma santa, um terço. A maioria das fotos era, visivelmente, de pessoas mais velhas. “Aqui é o gavetário”, me explicou – É a minha parte favorita no cemitério. É muito calmo por aqui, porque diariamente tem mais enterros do que exumação. Por isso, às vezes eu venho ler meu jornal aqui. Eu gosto também porque é a parte mais colada com o muro do cemitério. Daqui a gente ouve os ônibus passando na avenida, os carros, buzinas, conversas. É muito engraçado, não é mesmo? Vida e morte dividida por um muro.

-E você não tem medo?
-Medo do quê? De assombração? Foi uma grande frustração pra mim quando eu comecei a trabalhar como coveiro. Eu achava que ia ter contato com fantasmas – gargalhou – Mas no fim, é tudo um silêncio absoluto. E eu aprendi, vivendo, que eu tenho medo é dos vivos.

E ele sorriu.

O sorriso

O sorriso revelava cinco dentes. Mas, mesmo assim, demonstrava ter sido muito bonito antigamente. De certa forma, era uma evidência de uma vida sofrida, mas muito bem aproveitada, já que ele surgia a cada final de frase pronunciada por João.

-Certa vez, eu fiz um enterro de uma drag queen. Todos vieram fantasiados e com plumas, e foi com certeza um enterro divertido. Mas acho que um dos familiares não aceitavam diversão alheia e eu levei um soco. Perdi dois dentes naquela ocasião.

E foi desta maneira que ele começou a me contar sobre o sonho de fazer um implante dentário. “Pelo menos para a parte da frente do sorriso”.

-Dois mil reais para cada dente é um absurdo! E eu não ganho nem mil por mês! O jeito é esperar ganhar na mega sena.
E o sorriso desdentado surgiu mais uma vez.


As cruzes brancas

Em uma ala do cemitério, há centenas de cruzes brancas que se estendem por muitas quadras. Os túmulos são descuidados e, visualmente, me lembrava um típico cemitério de filme de horror, macabro, monocromático e solitário. Era impossível enxergar alguém andando por entre os túmulos, quem sabe para uma visita ou para enfeitar as covas com flores e velas.

-Indigentes – ele disse – Aqui, a gente define o sexo masculino com cruz azul, o feminino com rosas e indigentes com brancas. Ninguém sabe o nome deles.
-Mas sabe qual o sexo – eu indaguei.
-Oficialmente, sabemos. Mas, são pessoas que morrem nas ruas e não têm ninguém, ou que estão desaparecidas e sem documentos e a família não dá queixa. No fim, são todos enterrados aqui.

No entanto, mesmo com sexo definido, as chuvas e os ventos fazem com que a cor das cruzes desbote. Cabe então à família cuidar dos túmulos de seus entes queridos, para que todos não fiquem no mesmo patamar. Mesmo assim, é comum ver alguns túmulos com cruzes brancas no meio das azuis e rosas.

João acendeu um cigarro e continuamos a andar entre as fileiras de cruzes brancas. “É triste, com certeza”, disparou.
- Você vê quantas cruzes? São incontáveis! E cada uma destas representa alguém que teve uma história, amou e foi amado e, em algum momento, fez algo para ser lembrado por alguém. E no fim, acaba aqui, sem nem mesmo o nome pra representá-lo.
A mim, restava apenas uma sensação de tristeza, enquanto tentava contar mentalmente quantas cruzes estavam ao meu redor.
-Eu não tenho muita coisa pra perder. Mas quando chegar a minha hora, eu vou ter meu nome em uma cruz azul. E pra mim, por hora, isso basta – finalizou.

O cinza do céu

João não usa relógio. “Tenho alergia da pulseira”, me explicou. Então, ele aproveitou deste motivo para se desprender do tempo. “Eu sei quando tenho que ir embora quando o céu começa a ficar cinza, com aquela corzinha e iluminação baixa de fim de tarde. Afinal, não fazemos enterros durante a noite”, esclareceu.

São cerca de 20 enterros e 10 exumações por dia. No fim do expediente, o cansaço se apodera do corpo graúdo de João. Durante a semana, só consegue chegar em casa e dormir. “Um bom banho, uma janta rápida e minha cama. É tudo o que eu preciso”.

Nos fins de semana, aos domingos, ele folga. E é neste dia que reserva para visitar a família, levar os sobrinhos-netos ao cinema ou apenas curtir o ócio sozinho em casa. “Às vezes a gente precisa de um tempo sozinho. Sem pensar em nada, só naqueles dias em que se dorme, assiste um pouco de televisão e volta a dormir”, me conta ele sorrindo.

O cemitério da Vila Formosa tranca os portões às oito horas. João veste sua roupa guardada na casinha destinada aos coveiros. Despede-se dos companheiros e segue pelo portão verde, deixando o enorme jardim pra trás e descendo a avenida paralela ao cemitério, rumo ao Terminal Vila Carrão. “Agora é um longo caminho até São Mateus”, e ele se despede de mim e do turno, afinal, amanhã é domingo, dia de futebol na televisão. “Vamos ver se o Ronaldo salva o Corinthians”. E ele me acenou sorrindo.

domingo, 5 de abril de 2009

Muito prazer, voltei

Desde o dia que eu fui, nunca soube ao certo se eu havia realmente ido. É difícil sintetizar em palavras lógicas, esse sentimento que atrasa a exatidão do meu raciocínio, pois isso ocorreu desde o início: Quando eu cheguei, eu não sabia ao certo se eu já havia chego.

Eu uso a palavra eu, em porcentagens altas do meu dia a dia. Talvez seja o resultado de um mundo que girou por muitos anos em volta do meu respeitoso umbigo. Mas para por fim a esse egoísmo, devo confessar que o dia que eu cheguei, e o dia que eu descobri que nunca me fui, diz respeito a um segundo EU, que por um bom tempo juntou-se ao meu tempo, e por muito outro deixou de se juntar.

Não sei se eu começo a me explicar pela parte que eu descobri quando que eu já havia chego, ou pela parte que eu me pergunto se eu nunca me fui. Os meus pensamentos geralmente são cíclicos, e passam por descompassos inconstantes, e foi justamente um desses descompassos que me levou a coragem de escrever esse texto.

Era talvez verão, ou quem sabe o começo do outono. Eu andava por aí, procurando detalhes da minha vida urbana, para criar textos, histórias e poesias. Aquele verão, ou outono, parecia o tempo ideal, pois eu acabava de ser o alvo de uma desilusão amorosa. Dizem por aí, que poetas não conseguem perpetuar relíquias em momentos de alegria. Isso não ocorreu comigo. Eu nunca quis ser poeta alguma, mas me enquadro na linha de seres humanos existencialistas, que procuram respostas aos vazios, frutos dos meus tais descompassos de pensamentos. Então eu descobri que o segundo EU havia chego, quando respostas passaram a vir em meus textos, ou principalmente quando sentimentos passaram a refletir em mim, no momento que meu olhar tocava o mundo de forma afetuosa. Foi o começo do outono que me trouxe o tempo, aquele outro tempo, que se juntou ao meu tempo, e que me fez enxergar os detalhes que eu não encontrava, e me fez me encontrar dentro do meu vazio. Esse tempo foi um dos melhores de todos os tempos, ele me trazia um sorriso precioso, ele não fazia o meu sorriso ser precioso, mas ele era dono do sorriso precioso.

Esse tempo mudou de estação, passou de outono para inverno, de inverno para primavera, de primavera para verão, e do verão para o último outono, e com o último outono, o tempo se foi.
É engraçada essa coisa de ir e vir. Todo o ser humano tem, teoricamente, o direito de ir e vir, mas às vezes eu gostaria que o tempo não tivesse esse direito. Esse direito de ir. Às vezes me pego pensando: Se era pra ir, por que veio?Tempo!

O que eu sei é que eu achei que ele se foi. Na verdade o tempo realmente vai. Quantas vezes seus avós já não começaram uma frase com “no meu tempo...”. E quantas vezes você mesmo já não indagou para um pirralho: “No meu tempo eu assistia Castelo Rá-tim-bum”.

Só que no meu caso, o tempo me fez perder duas coisas muito especiais. Eu perdi um sorriso precioso e a minha inspiração. Desde que o tempo se foi, poucas vezes sentei em frente ao computador, e deslanchei meus pensamentos e sentimentos. Depois que ele se foi, passei a olhar os detalhes, como peças irrelevantes de um dia a dia com pouco sentido. Desde que ele se foi, nunca mais pedi desculpas (a ele) por meus erros, nem confessei minhas verdades e nunca mais o disse o quanto ele será eternamente importante para mim.

Mas apesar desse tempo ter passado, eu posso dizer que hoje eu tive muita sorte. Eu descobri que quando eu, que na verdade é ela, me fui, nunca havia realmente ido. E hoje, quando avistei novamente aquele, que era no tempo o meu segundo EU, meus olhos voltaram a enxergar o seu sorriso precioso. Esse sorriso precioso não pertence mais a mim. Mas esse sorriso precioso voltou a me dar ela: A inspiração.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Camisa xadrez

Aqueles olhos castanhos escolheram repousar e, por um instante, se fecharam. Ele estava plantado em frente ao espelho, mas preferiu não se enxergar. Ao redor dos olhos, discretas sardas marrons desenhavam um mosaico desconcertado. A pele branca estava flácida e rugas formavam planícies no rosto.

Medroso, esforçou-se para deixar os olhos abertos por poucos segundos e fitou, em seu reflexo, uma imagem quase desfigurada. Os cabelos grisalhos estavam levemente desgrenhados e, raros, parte da cabeça podia ser vista de longe. Parecia até que os pelos tinham se revoltado e descido pelo rosto. Juntos, eles formavam um gramado espesso na face, escondendo parte da boca murcha e todo o queixo. Mesmo as bochechas, sugadas, já não existiam mais.

Fechou os olhos de novo e aquela camisa xadrez continuava metida nele, com as riscas em azul escuro. Os botões abertos revelavam as pelancas de idoso e os mamilos estavam amolecidos, dormentes. Ossudo, o braço esquerdo guardava uma tatuagem cheia de letras. Pelo menos dez anos atrás, algumas palavras podiam ser lidas, mas o tempo levou o dizer e o deformou na pele.

Abriu os olhos e, envergonhado, encaixou os óculos no rosto. As orelhas pareciam estar maiores que de costume. Tremendo, penteou a sobrancelha com os dedos finos e tocou a testa. Tomada por linhas de expressão, aquela parte da face mais lhe parecia as cordas de uma harpa que não funcionava.

Foi então que, emocionado, levantou os óculos e sentiu, com dor no peito, o coração acelerar. De repente, aqueles olhos penosos se encheram de água, tomados por ondas que decoraram a camisa xadrez com três lágrimas. “Envelheci...”, ele chorou.

terça-feira, 31 de março de 2009

Paradoxo feminino

E aí, você começa refletir. Assim, sei lá, sobre a própria forma de encarar o mundo, e também como este é encarado pelos outros a sua volta. A todos nós, nos é imposto diariamente, pequenas escolhas: qual a blusa que eu coloco, o que vou comer, o que responder para aquela piadinha e que horas vou dormir. Quase sempre, estas não implicam em uma renúncia muito drástica e que vá o mudar o correr do nosso rio. No entanto, existem aqueles dias fatídicos, em que as pequenas escolhas são insignificantes em frente a bola de neve que se forma em nossas frentes. Como agir? Como escapar? Como melhorar? Caberia procurar a sessão de auto-ajuda das livrarias? Mandar carta ao Gaspareto? Quem sabe jogar nas runas, pedir ao i-ching, apostar nas cartas? Geralmente, são nestes dias que você fica cabisbaixa, sem motivação, com preguiça de continuar batalhando por esta, aquele, ou aquilo. E então, as músicas se tornam depressivas, o choro eminente e o banho inexistente. Afinal, pra quê? O Mundo não me quer, o Mundo me odeia, eu não tenho ninguém e, conseqüentemente, alguém que posso se incomodar com a minha falta de banho, meu cabelo embaraçado e minha calça de moleton manchada de cândida. E aí, você fica ali, rodeada por quatro paredes. Suas olheiras se instalam pra ficar e você dói por dentro enquanto canta alguma música depressiva e se admira de como a letra pode falar tão bem de você, como pode ser tão descritiva, como pode ser tão exata. Mistério. Para se alimentar, chocolate. Você se entope de chocolate até que a garganta comece a ficar amarrada e já não seja suportável o paladar adocicado. E então tem a propaganda da Becel, com uma família reunida, sorrindo e vivendo bem por causa de uma margarina? E você quer esta vida pra você. Filhos perfeitamente lindos e pré-fabricados e um marido moreno, olhos verdes e sorriso impecável. Todos sorrindo enquanto passam manteiga no pão. Suas costas doem, os joelhos, e um peso se instala em seus ombros, como se houvesse alguém pendurado, querendo que você fique cada vez mais pra baixo. E aí, vêm as reflexões. Hoje eu to yang. Hoje eu to deprê. Hoje eu to triste. Hoje eu to irritada. Irritada? È, comigo mesma, que não to suportando esta angústia instalada aqui, entende? Zeca Baleiro, Paulinho Moska, Oasis, Chico Buarque – e todos eles dizem: se jogue da janela. Não, melhor, sem sujeira: ligue o gás e respire, minha filha. E aí, em contra partida, vêm a Lygia F. Telles te dizer: “Ei, nada de suicídio, vamos costurar as feridas! Com linha dupla!”. E aí você concorda. Vai seguindo ouvindo o I-pod, se aquietando no travesseiro, deixando que o sono se apodere e ganhe a batalha.

No outro dia, o mundo parece mais colorido. Os pássaros cantam lá fora. O pedreiro da obra ali embaixo parece especialmente bonito nesta manhã. Ora, ora, mas sua barriga murchou? Seus cabelos estão melhores? As olheiras sumiram? No rádio, até Calypso é bem vindo. A margarina Becel é sem graça e você quer manteiga Aviador. Tem rosas lá foram? Esta rosas já existiam? Nossa, mas o ar está tão fresco hoje. No armário, nada de dúvidas, a blusa branca com a calça jeanz e ... iii, calcinha grande para sustentar o absorvente.

segunda-feira, 23 de março de 2009

O que foi e/ou nada

Caros amigos e amigas, companheiros e associados da corrida maluca – chamada vida -, gostaria de alertá-los sobre um vírus. Cuidado! É um agente altamente infeccioso. É denso. Sai da língua como um néctar venenoso, compromete nossa audição, corta o ar dos nossos pulmões, e não dá para mantê-lo em quarentena. Deve ser antigo e está longe de capengar.

– “O que é?” - pensam vocês.
E a resposta é a seguinte:“Nada” – respondo-lhes.

Eu esclareço. “Detalhes tão pequenos de nós dois são coisas muito grandes pra esquecer”. Homem inteligente esse rei.

Quem nunca deparou com a maldita resposta viral “nada”. Alguém? O tal vírus deve ser o oposto dos anjinhos cúpidos com cabelinhos cacheadinhos, e simpatiza, especialmente, pelo relacionamento entre um casal. Embora, sem hipocrisia, Ele prefira a fêmea, o sexo nada frágil.

É, a vida nos caleja. Entretanto, graças a isso, vem a experiência, fator principal para reconhecer os sintomas do “coisa ruim.” Entre os sinais: cara feia, ausência de sorriso, silêncio, um olhar que alcança a seca de Caicó, uma (possível) dor de cabeça, e a arte milenar de nos confundir. O vírus pode se propagar em qualquer lugar, no carro, no cinema, no bar, na casa dos pais, no motel...É quando caímos na besteira de fixar o olhar e questionar a enferma. – O que foi?
- Nada! - responde a desalmada, sem ar faceiro, e já preparada para a peleja.

Na teoria, isso basta. Não! Em matéria de curiosidade, o ser humano é graduado. E, por isso, ele não se contenta e inicia a “sessão bombardeio”. “Tem certeza?”, “Será?”, “Sei lá, to te achando estranha”, “Não quer conversar?”. E voilá...Nem os pacifistas conseguem evitar a nova moda, a tal da D.R, que de tenra só tem o nome.

Há algumas semanas, em um dos meus botecos favorito, fui testemunha ocular da manifestação do vírus mutante. Tava um sol danado, eu e o amigo do dia a dia bebíamos e nos perdíamos em devaneios. Mais à frente, uma guria, agitada. O cabra deve ter notado todos os sinais da crise viral tomando conta da cabrita magricela, e se danou a encará-la. Ele, em um desses momentos “te olho, te amo, me diz”, mas sem falar tampouco indagar, ouviu as trombetas apocalípticas oriundas do céu. Em tom de irritação, ela atirou: “- O que foi?!” - Eita que esse vírus é poderoso, faceiro, e se não pega o peão de um jeito, atrai de outro. Sujeito bom de arapuca.
- Gluumm – O rapaz engoliu tão seco e alto que eu ouvi lá do batente, próximo às escadas, onde estava sentado.

Foi um calafrio nas costas. Votes!

É, pilotos, não adianta invocar os cientistas, muito menos os médicos. Talvez os psicanalistas, ou os antropólogos. Vai de cada um. Eu, em particular, prefiro a reza santa da Dona Érica.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Nem um Centavo

Creio que o mundo não queira um só centavo. Mas, se minha sabedoria valesse, já estaria pulando pelos ares. Buscaria um paraquedas, nunca estaria tão livre. Minhas rugas se estrebuchariam com o vento batendo, e levando. Levando, e batendo. Mas eu não valho nada, em dinheiro, diga-se de passagem. Gosto de comer uvas, passas ou não. Sou um velho grato, ora. Passeio todos os dias pelo pequeno jardim da minha casa olhando para a rua. As pessoas passam e veem que eu estou sempre ali. Me chamam de fofoqueiro. Sou de fofoca, sim, mas gosto mais de falar sobre futebol. Leio ao menos três livros por vez, até do mesmo autor. Durmo tarde, e tomo comprimidos, aos montes. Tenho netos, bastardos. Ah, o balançar das garotas. Garotas são sempre garotas, mesmo para um camarada com catarata. Não atendo o telefone, não. Violões me dão náuseas, o café deve vir sempre frio. E se houvesse patins na minha época, eu largaria meu peão.

Mas, meu jovem, não venha com hipocrisia de que o dinheiro não vale, porque fico realmente irritado com isso. Sou velho, pobre, mas não caio mais na armadilha do mundo solidário. O mundo que se dane. Vou jogar baralho e apostar no Toró. Quero dinheiro, em blocos, em coro. Pode chamar a polícia, minha velha, mas eu vou lá fazer minha fézinha. E quando eu ganhar, vou fugir pro sul, para ver as loiras desfilando de biquínis no meu iate. Este meu roupão já está um pouco usado demais. Quem sabe num bingo!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Ponto de vista pela sacada

O xale envolto ao corpo e o elegante kippah sobre sua cabeça, reverenciavam ao culto matinal. Direcionando-se a Jerusalém, o velho recitava a reza em voz alta.

Assim corria as manhãs do capitão reformado do exército israelense, Shamir Hyatt. Entre um gole a outro de chá de folhas de figueiras, corria atentamente o olhar para a manchete do jornal.

Sentado em seu banco, sobre a sacada de sua casa, vislumbrava a cidade natal. Só era interrompido de hora em hora para ouvir as últimas informações de seu criado, o governante Malachai, sobre o conflito com os palestinos do Hamas, na fronteira da Faixa de Gaza.

- Como estamos até agora, Malac?

- A menos de uma hora, mais trinta e três militantes do grupo radical morreram após um bombardeio ocorrido a nove quilômetros da fronteira, senhor.

- Excelente. Caminhamos para a vitória. A derrocada final não tarda acontecer.

***

Shamir fora capitão do exército israelense em 1967, quando o recém fundado estado israelense guerreou com vizinhos, na batalha conhecida como Guerra dos Seis Dias. Hyatt, foi um oficial exemplar, condecorado muitas vezes por atos de bravura.

A ansiedade e aflição dividiam confusamente a mente daquele veterano. Seu neto Eliezer entraria em nova etapa de vida. Para orgulho do avô, ir-se-ia comemorar o Bar-Mitsvá, uma cerimônia muito importante na vida de um garoto judeu. Neste momento, o jovem de treze anos entra em aliança com D’us. Nesta ocasião sela-se o compromisso de seguir os preceitos da Torá, o livro sagrado dos judeus.

O pai do garoto, Aharon , no entanto, não poderia participar da solenidade. Estava a serviço do estado, combatendo ao norte de Nuseirat.

O jeitão ríspido e durão do velho, praxe de um oficial, não deixava transparecer a vontade de ver filho e neto reunidos.

***

Para Shamir não havia nada mais empolgante do que contar as baixas inimigas. Gabava-se a cada corpo palestino tombado ao chão. Como tiro ao alvo, apontava a bengala para um ponto fixo. Ouvia-se palavrões e gargalhadas dedicados aos seus inimigos.

Civis e militantes, que eram assolados pelas máquinas de artilharia, viravam números na boca do veterano. As placas de identificação de cada soldado eram incluídas em um molho de chaves e incorporavam um mórbido chaveiro de assassinatos que carregava entre os dedos.

Acostumado aos serviços de Malachai, o aguardou na tarde deste domingo para receber mais um relato do próximo número a ser contabilizado. Estranhou a demora entre o intervalo das notícias, mas preferiu esperar.

Arranhando os degraus da escada de acesso a sacada surge o criado, de aparência esquálida. Ao vê-lo transtornado questiona Hyatt:

- E então? Pela cara, o número deve impressionar, comenta friamente o militar.

- Na...não, meu senhor. Quer dizer, sim! Gagueja.

- Pois fale de uma vez.

- Desta vez, foi 15. Aliás, o número 15 da nossa infantaria, responde meio desajeitado.

Neste instante, Shamir dirige o olhar para a mão direita de Malac, que segura a placa de identificação gravada com o nome: A. Hyatt.